A revolução industrial produziu muitos impactos positivos para a sociedade[1]: expectativa de vida média em 1830 na Inglaterra era de 33,4 anos contra 79,7 anos em 2000 (no mundo a expectativa era 69,1 anos em 2000); a renda per capta subiu de USD 605 em 1820 para USD 7.890 em 2000 (em dólar PPC – paridade de poder de compra de 1990); a educação formal para menores de 15 anos também subiu 23,9% em 1870 para 81,5% em 2000.

Estas melhorias sociais alcançadas com o crescimento econômico desde o século XVIII foram externalidades positivas do processo de industrialização. Mas com certeza, ninguém parou e pensou em criar um sistema de produção em massa cujo objetivo fosse melhorar a qualidade de vida humana.

“De fato, a Revolução Industrial como um todo nunca foi planejada. Tomou forma pouco a pouco, à medida que industriais, engenheiros e designers tentavam resolver problemas e tirar vantagem imediata daquilo que consideravam ser oportunidades em um período sem precedentes de mudanças massivas e velozes.” (BRAUNGART e MCDONOUGH, 2013, p. 26).

Da mesma forma, ninguém conseguiu prever no início da Revolução Industrial todas as externalidades de impacto negativo que seriam impostas para a sociedade e para o meio ambiente. O relatório 210 da OXFAN[2] indica uma alta concentração de renda no mundo, com 1% da população detendo mais riqueza que os restantes 99%, com 62 pessoas detendo mais riqueza que 3,6 bilhões de pessoas. Os impactos ambientais também são imensos, com a concentração de CO2 na atmosfera que impacta no aquecimento global, com a perda de biodiversidade e com a quebra de resiliência de diversos ecossistemas devido a exploração indiscriminada dos recursos naturais do planeta, como o Planetary Boundaries (Limites Planetários) comprova.

Para Barbieri e Cajazeira (2012) as empresas que possuem o objetivo de contribuir com o desenvolvimento sustentável usam a Responsabilidade Social como meio para tornar a contribuição efetiva. Mas atuar apenas com responsabilidade já não resolverá todos os problemas socioambientais que o desenvolvimento causou. Será preciso uma atuação de protagonismo do setor empresarial rumo ao desenvolvimento sustentável, incluindo mais que a dimensão econômica na fórmula de crescimento.

Para Sachs (2008) o crescimento econômico foi construído de forma excludente do mercado de consumo para a maioria das pessoas e como concentrador de renda e riqueza nas mãos da minoria das pessoas. Ele faz críticas ao desenvolvimento como sendo resultado apenas do crescimento econômico:

“O desenvolvimento é um conceito multidimensional: os seus objetivos são sempre sociais e éticos (solidariedade sincrônica). Ele contém uma condicionalidade ambiental explícita (solidariedade diacrônica com as gerações futuras); o crescimento econômico, embora necessário, tem um valor apenas instrumental; o desenvolvimento não pode ocorrer sem crescimento, no entanto, o crescimento não garante por si só o desenvolvimento; o crescimento pode, da mesma forma estimular o mau desenvolvimento, processo no qual o crescimento do PIB é acompanhado de desigualdades sociais, desemprego e pobreza crescentes.” (SACHS, 2008, p. 71).

O modelo de desenvolvimento humano testou a resiliência dos ecossistemas e de diversas sociedades, principalmente nos últimos 200 anos. Sem equilíbrio entre a dimensão econômica, a dimensão social e a dimensão ambiental, a chance da civilização humana entrar em colapso é enorme. Muito desse desequilíbrio está relacionado com a atuação das empresas e sua forma de operar tratando os recursos finitos de forma infinita.

“As noções de estabilidade e resiliência são fundamentais para a definição da ordem de grandeza do uso sustentável dos serviços ecossistêmicos” (ALMEIDA, 2007, p 64).

O impacto das empresas no meio ambiente não entra na conta de resultados das empresas, que trabalham 24 horas para maximizar seus resultados financeiros.

Sukhdev (2013) indica que os 4 principais problemas das corporações são: (i) visão de curto prazo, com busca infinita de retorno financeiro no curto prazo; (ii) caráter efêmero das companhias, com busca de locais mais baratos de produção e fusões e aquisições que não se preocupam com desenvolvimento local; (iii) desigualdade de distribuição de riquezas, comprovado pela diferença do que um diretor recebe comparado a um trabalhador de linha; e (iv) falta de responsabilização, considerando que grandes empresas já não possuem um dono, mas uma gama grande e mutável de acionistas.

E o cenário para que este caminho fosse trilhado, de acordo com Mackey e Sisodia (2013), foi uma visão fundamentalmente equivocada sobre o capitalismo de livre-iniciativa, pelo sequestro da base ética do capitalismo por economistas e críticos que atribuíram uma identidade estreita, egoísta e imprecisa, propiciando que muitas empresas funcionem com um baixo nível de consciência dos verdadeiros propósitos e impactos que exercem no mundo, gerando o mito de que as empresas precisam maximizar o lucro, e com uma forte regulamentação, que criou condições de um “capitalismo entre amigos”, perdendo sua essência de livre-iniciativa.

O modelo de desenvolvimento econômico foi construído sob a ótica de crescer sempre e a qualquer custo. Para Penteado (2008) existem duas unanimidades na teoria econômica: neutralidade das atividades econômicas sobre a natureza e seus ecossistemas; e a obsessão pelo crescimento. Já temos provas suficientes que existe uma crise sem precedentes na natureza e nos ecossistemas devido as atividades econômicas. E também existe uma crise mundial no crescimento econômico que não consegue mais satisfazer a obsessão com crescimento exponencial, infinito e ininterrupto.

“A razão de ser do capitalismo é levar cada aspecto da vida humana para a área econômica, onde este é transformado em commodity e negociado como um bem no mercado.” (RIFKIN, 2016, p. 14).

O modelo de prosperidade do desenvolvimento é materializado através da transformação de aspectos da vida humana em coisas. Por isso mesmo, o principal indicador de crescimento mundial é amparado na produção de coisas, o Produto Interno Bruto[3] (PIB).

Rifkin (2016) diz que as revoluções industriais foram amparadas pela inovação na matriz comunicação / energia / transporte. A primeira Revolução Industrial acontece pela junção da invenção da imprensa, do uso do carvão como fonte de energia e do desenvolvimento do motor a vapor. A segunda Revolução Industrial iniciou-se com a invenção do telefone, do uso do petróleo como fonte de energia e do desenvolvimento do motor a combustão interna.

O capital financeiro foi essencial para cobrir os altos custos de investimento para a criação da infraestrutura necessária para as telecomunicações e para a distribuição da energia elétrica e para a construção de vias de transportes, fazendo surgir grandes conglomerados integrados verticalmente para aumentar a eficiência e a produtividade na distribuição de serviços e produtos fabricados em massa (RIFKIN, 2016).

“Está surgindo uma nova matriz comunicação / energia / transporte com uma nova infraestrutura pública “inteligente”. A Internet das Coisas (IdC) irá conectar todos em um novo paradigma econômico bem mais complexo que a Primeira e a Segunda Revolução Industrial, mas cuja arquitetura é distributiva, não centralizada. Ainda mais importante, a nova economia irá otimizar o bem-estar geral por meio de redes lateralmente integradas nos bens comuns colaborativos, em vez de empresas verticalmente integradas do mercado capitalista.” (RIFKIN, 2016, p. 84).

Para Rifkin (2016) uma nova geração está trazendo um novo significado para a jornada humana. A nova matriz é apoiada pela Internet das Comunicações, que é administrada entre governo, setor privado e sociedade civil como um bem comum global, com todas as partes desempenhando um papel colaborativo em sua governança. Isto está exigindo a criação da Internet da Energia, apoiada em fontes renováveis e geradas por indivíduos e cooperativas de produtores de energia sustentável. E exigirá que seja criada a Internet dos Transportes, para gerenciar de forma integrada a logística mundial, com mais eficiência entre o transporte, armazenamento e entrega. Isto significa a ligação em rede de toda a matriz de comunicação / energia / transporte em torno da Internet das Coisas, favorecendo o desenvolvimento da terceira Revolução Industrial, que vai requerer menos investimento de capital financeiro e mais investimento de capital social, em escala lateral ao invés da vertical, com a governança de bens comuns ao invés de um sistema estritamente capitalista.

“Se o sistema antigo favoreceu o interesse próprio autônomo no mercado capitalista, o novo sistema que está em evolução favorece a profunda colaboração em bens comuns conectados em rede.” (RIFKIN, 2016, p. 258).

A Terceira Revolução Industrial não é uma panaceia que resolverá todos os males, nem uma utopia que nos levará a perfeição. É um plano econômico pragmático capaz de nos transportar para uma era sustentável e afastar a possibilidade da civilização e da espécie humana encontrar sua extinção (RIFKIN, 2012).

TANTERIOR                                                  TPROXIMO


  • [1] Dados da publicação How as live: global well-being since 1820, feita pela OECD (The Organization for Economic Co-operation and DevelopmentOrganização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico).
  • [2] Oxfam é uma confederação de 20 organizações que atuam em 94 países pelo fim da pobreza e desigualdade. Fonte: https://www.oxfam.org.br/oxfam_no_mundo. Acesso em 23/10/2016.
  • [3] O PIB (Produto Interno Bruto) é um dos indicadores mais utilizados na macroeconomia e tem como principal objetivo mensurar a atividade econômica de uma determinada região. O Produto Interno Bruto (PIB) representa a soma, em valores monetários, de todos os bens e serviços produzidos em uma determinada região (país, estado ou município), durante um período específico de tempo (ano, semestre, trimestre ou mês). Fonte: http://br.advfn.com/indicadores/pib,. Acesso em 12/09/2016.